Por as meninas não se interessam por programação?

Faz tempo que tenho pensado nesse tema, e depois de trocar umas idéias com as meninas do luluzinha camp, queria compartilhar aqui algumas das minhas reflexões e aproveitar pra problematizar um pouco a questão. Parto de um post da danah boyd, feito em cima de um estudo sobre as expectativas profissionais e visões sobre a computação entre os jovens nos EUA. Ela resume os resultados assim:

"While 67% of all boys rated computer science as a "very good" or "good" career choice, only 9% of girls rated it "very good" and 17% as "good." Digging down deeper, it is fascinating to note that there's a gender gap between boys and girls when it comes to feeling that "being passionate about your job" is "extremely important" (F: 78%, M: 64%), "earning a high salary" is "extremely important" (F: 39%, M: 50%), and "having the power to do good and doing work that makes a difference" is "extremely important" (F: 56%, M: 47%). These all play into how these youth perceive computer science and computing-driven fields."

Ou seja, existe uma diferença bastante significativa entre o número de meninos (67%) e meninas (26%) que acham que ciências da computação é uma opção boa ou muito boa de carreira. Além disso, entre as meninas, aparentemente é mais importante trabalhar com algo que faça diferença no mundo e de que elas gostem do que para os meninos; para eles a questão financeira é mais importante que para elas.

E isso nos leva à pergunta: por que o mundo da computação e da tecnologia é mais atraente para os meninos do que para as meninas? Dêem uma olhada nesses outros exemplos. Essas são as fotos de uma oficina de Python organizada pelo pessoal do Bailux... iniciativa genial, mas cadê as meninas?

Oficina de Python Bailux

Nas estatísticas do AcessaSP, elas também estão em minoria. A Ponline faz uma enquete anual com todos os usuários do posto, que tem mais de 5000 respondentes. Historicamente, a relação homens X mulheres é de 6 X 4, ou seja, aproximadamente 60% de homens e 40% de mulheres[1]:


Se entramos mais especificamente na questão de quem está publicando na Internet, a diferença diminui um pouco, mas ainda existe uma quantidade significativamente maior de homens que publicam do que mulheres:

E ainda assim, quando indagados sobre o uso das redes sociais, os números se equalizam. Ou seja, homens e mulheres, meninos e meninas, aparentemente têm o mesmo interesse em estar no orkut...

 

Então, porque é que toda a parte do desenvolvimento e programação está na mão deles?

Uma vez perguntei a um colega do doutorado que está fazendo um estudo sobre bloggers o que era necessário para ter um blog de sucesso no mundo da tecnologia. A resposta dele foi "a primeira coisa é ser homem".

Aqui em Barcelona, tem um coletivo/projeto super interessante que se chama DonesTech MulheresTech), cuja descrição é:

"An investigation that arises from the desire to elucidate certain questions to transform research into a useful knowledge reserve to all those people worried about inequalities among genders and for people oriented to social and political transformation.

A space to rethink technology and its representations, its connection with the body and subjectivities and its relation with new forms of production, work, affections, identities, knowledge, desires, feelings, actions..."

Acho que nessa descrição está uma parte da problemática que proponho com minha pergunta-matriz deste post: mas por que é importante que as meninas aprendam a programar?

Como já discutimos antes, desenvolver tecnologia é uma questão política: se o software e o hardware que utilizamos são parte da nossa identidade quando interagimos online ou utilizamos essas tecnologias, e por outro lado, se de fato existem diferenças culturais e sociais entre homens e mulheres, então envolvê-las nos processos de desenvolvimento deixa de ser uma demanda apenas de igualdade de gênero a nível laboral, por exemplo, mas também em termos das definições sobre como serão organizadas e se comportarão as novas tecnologias, e como elas representarão essa identidade.

Nesse sentido, envolver mais mulheres no mundo da programação, do software livre, da engenharia, é tão importante quanto ter mulheres ministras, presidentes... porque de fato, as mulheres estão usando a tecnologia, como mostram os gráficos da Ponline acima.

Como então, incentivar que elas participem? O Rapunzel é uma resposta, meio fraquinha ainda, na minha opinião: um projeto que propõe ensinar programação para minorias de gênero usando um jogo de dança. E talvez a resposta esteja também no próprio estudo "New Image for Computing" com o qual comecei o post: se as mulheres acham que o mais importante é sentir satisfação no trabalho e contribuir para um mundo melhor, será então que não é a própria idéia da importância da tecnologia que não está bem discutida?

Termino, aqui, com meu testemunho pessoal: quando tive que escolher entre fazer jornalismo ou investir na programação optei pelo primeiro. Pura e simplesmente porque o mais importante para mim era "mudar o mundo" e não "ficar criando programas de computador e ganhando dinheiro".

[1] Estatísticas da Ponline 2007, podem ser encontradas aqui: http://ponline.acessasp.sp.gov.br. Os dados do ano passado ainda não foram publicados e assim que forem, atualizo o post pra gente debater as tendências.

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5 comments for "Por as meninas não se interessam por programação?".

1. Pingback

[...] eu e a Dani Matielo (nos comentários) sobre a participação da mulherada no desenvolvimento de softwares. Entre na [...]

2. então...

Foi exatamente por isso que inventei o LuluzinhaCamp... para reunir as mulheres e deixá-las à vontade para explorar a "tecnologia" do seu próprio jeito.
Estes números vão mudar, na minha opinião - e isso não deve demorar muito.
Se não me engano os últimos números do AcessaSP e AcessaEscola, que tive oportunidade de ver durante a aula da Drica na ESPM semana passada mostram outro panorama...
E acho que falta, aqui, olhar um pouco os números do CGI.br... a parcela feminina é mais significativa, IMHO. E isso não quer dizer que elas irão dedicar-se à área da computação.
Acho que temos muito a mudar nos próximos anos.

3. Diferença entre uso e desenvolvimento

Oi, Lucia, tudo bom? Valeu por comentar, e aproveito para dizer que acho que o LuluzinhaCamp é sem dúvida um movimento importante dentro desse processo de apropriação das mulheres em relação à tecnologia.

Agradeço também as suas sugestões de referências. Fui atrás dos resultados de 2008 da Ponline e me deparei com um problema: a pergunta em 2008 foi alterada para incluir a "publicação de informações em sites como o orkut". Ou seja, o foco da pergunta não está mais no desenvolvimento de tecnologia apenas, passando a incluir também o "uso" dessa tecnologia. Por isso, não dá pra comparar as porcentagens: a Ponline de 2008 diz que 51% dos usuários já "publicou" algo na Internet, mas isso inclui também "comunidades no orkut".

De qualquer jeito, acho que você tem toda a razão: as mulheres estão "usando" mais a tecnologia, e acho que a expansão das redes sociais é uma das coisas que talvez incentive esse uso maior.

Nos dados do CGI.br, também, as diferenças de uso são menores, porém eu não encontrei dados sobre desenvolvimento de tecnologia.

O que eu questionava no post, entretanto, era: se as mulheres estão cada vez mais usando a tecnologia, porque é que a presença delas na parte de desenvolvimento dessas tecnologias ainda é tão pequena?

Defendemos com muita força a questão do software livre porque nos permite ter maior autonomia e não ficarmos reféns de grandes corporações no momento de utilizarmos esses programas. Entretanto, se existem apenas homens desenvolvendo esses programas, se uma mulher achar que determinado feature deveria ser desenvolvido no programa X, ou achar que determinada lógica dentro de um sistema operacional deveria ser diferente, ou mesmo algo mais físico, como o tamanho das teclas de um laptop, deveria ser maior, qual a capacidade de atuação que ela terá?

Eu espero também que esses números estejam mudando, que o fato de usar mais a tecnologia seja um caminho para que mais meninas e mulheres se interessem pela programação, pela engenharia. Mas o ponto que eu queria fazer era que é importante SIM que mulheres entrem na parte de desenvolvimento, e não fiquem apenas do lado da interface do uso da tecnologia. Porque o desenvolvimento da tecnologia é um ato político - uma coisa que o pessoal que defende SL não cansa de repetir.

E na prática, por que é que "programar" é coisa de homem? :)

4. desenvolvimento de tecnologias e mulheres

Dani,
Acho que a gente tem que ir por partes, como diria o Jack...
A próxima geração de mulheres, acredito eu, terá menos barreiras e questões a respeito da tecnologia - e do seu desenvolvimento - pela simples presença dela no dia-a-dia. Eu mesma tentei, bravamente, participar de alguns projetos de desenvolvimento de software livre e descobri uma coisa: não tenho paciência e muito menos conhecimento suficiente.
Não sei se os números vão mudar. Mesmo. Temos mais engenheiras e arquitetas hoje do que há 20 anos, mas isso quer dizer algo?
Acho, sim, importantíssimo as mulheres desenvolverem também. Mas temos designers e vários outros postos importantes na indústria que já estão sendo "colonizados" pela mulherada. Além disso, acho, é um mundo altamente sectário - tanto que uma das grandes "queixas" das Luluzinhas é que os homens não prestam atenção ao que dizem...
Será que não há um tanto de machismo ainda por parte dos desenvolvedores? Discriminação? Não sei, de verdade, são perguntas que me faço. Ausência de mulheres hoje, pode ter dois significados, acho: elas não têm (ainda) interesse pelo assunto ou não são acolhidas pela comunidade.
Acho que você tem mais experiência que eu para contar. :D
beijo e obrigada pelas respostas.

5. mais info

lucia, fui falar com a cacau também, que está responsável pela parte de pesquisa do AcessaSP e ela disse que os dados que a Drica apresentou na ESPM eram do Acessa Escola. Eu não tive acesso a esses dados, mas acho que seria bem interessante saber se existe ou não esse gap de gênero entre meninos e meninas que estão desenvolvendo tecnologia.

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