Lan house e inclusão digital: qual o problema?

Saiu no Estadão essa matéria, acusadoramente dizendo que as lan-houses estão querendo "abocanhar" dinheiro público destinado à instalação de telecentros.

Contextualizo: o governo federal está com um mega projeto para incentivar a criação de novos centros de inclusão digital em todo o país. Vão fazer parcerias com governos estaduais, municipais e organizações da sociedade civil: dar computadores e contribuir com uma ajuda de custo de R$400 para pagar um monitor.

A idéia é boa, num país onde a maioria da população não tem dinheiro pra ter computador e Internet em casa, a solução é incentivar mesmo o uso do espaço compartilhado. A própria pesquisa do CGI de 2008 mostra a importância dos postos de acesso público: 48% dos acessos à internet são feitos em lan houses, contra 4% nos telecentros.

Pergunta: se as lan houses aparentemente incluem mais gente, então por que investir em telecentros, não é?

Afinal, ao menos teoricamente, a lan house é um modelo mais sustentável de inclusão (digital e social): ela incentiva um micro-empresário, ou seja, oferece emprego e movimenta a economia, é razoavelmente barata (não vi ainda uma pesquisa sobre isso, mas poderia apostar alto que as pessoas não deixam de ir à lan house por falta de dinheiro), oferece uma conexão e computadores de qualidade, mas ainda assim, não pode ser beneficiada pelo Projeto Nacional de Inclusão Digital.

A justificativa? Que o governo tem outros projestos específicos para incentivar iniciativas com objetivo de lucro, e a idéia no momento é ter centros de acesso gratuito, com monitores (agentes de inclusão digital) capacitados para essa função.

Ok, ok, todos sabemos que telecentros não são lan houses. Em primeiro lugar, os objetivos são claramente bem diferentes: o telecentro deve incluir as pessoas, independente de isso ser rentável ou não. A lan house tem o objetivo de otimizar ao máximo o seu ganho, e portanto suas ações serão todas nessa direção.

A lógica é válida, se não fosse por alguns poréns: 

1) Eu acho que a sustentabilidade e a apropriação local de um projeto desses é essencial. E, mais do que isso, a independência e possibilidade de ser capaz de seguir sozinho depois do ponta pé inicial. O projeto do governo em nenhum momento cita qualquer compromisso com uma sustentabilidade posterior, e eu não entendo qual a resistência em montar parcerias em que, ano a ano, o tamanho da contribuição do governo é menor, para permitir que cada iniciativa encontre seu próprio caminho. Afinal, por que mesmo que o acesso precisa ser gratuito?

Mas meu segundo ponto me parece ainda mais preocupante: 

2) os telecentros instalados atualmente não estão realmente incluindo as pessoas que não vão às lan houses. Ou seja, pessoas idosas, mulheres, coletivos que são apontados em todas as pesquisas sobre a "brecha digital" como aqueles que mais precisam de uma ação inclusiva, estão ficando de fora. E a grande parte do público dos telecentros acaba por ser exatamente o menino, jovem que - vejam vocês, também freqüenta a lan house.

Conclusão? Nenhuma. A iniciativa é boa, mas tem problemas graves. Está em consulta pública, e tenho curiosidade para saber se será feita alguma alteração de acordo com o retorno recebido. Mas mesmo com toda a grana investida, it is a looong way para fazer inclusão digital de verdade...

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3 comments for "Lan house e inclusão digital: qual o problema?".

1. concordo

basicamente é isso: concordo com você.

em 2000, quando começamos com os infocentros, não havia telecentros. hoje eu faria investimentos em lan houses e programas por segmentos sociais (idosos, cegos, crianças...).

já dizíamos em 2000 que inclusão digital é slogan de proctologista... o que temos que dar é acesso.

abs,

estraviz

2. Telecentros e lanhouses - bibliotecas e livrarias

Vamos lá, que esta discussão é boa!

Assim como o poder público deve investir em bibliotecas públicas e as livrarias são iniciativas comerciais, que fazem parte do mesmo sistema de leitura, também telecentros públicos e gratuitos são uma coisa e lanhouses são iniciativas comerciais.

Claro que é importante haver uma política governamental para as livrarias e para as lanhouses, pois sua existência garante a capilaridade do acesso aos livros, do acesso à web.

Mas comparar lan houses a telecentros é, reafirmando meu exemplo, querer comparar o papel das bibliotecas na formação de leitores com o papel das livrarias na vendagem de livros.

As lanhouses possuem muitas deficiências e é necessário uma política para elas, principalmente em termos de legislação, pois além de sua sustentabilidade financeira (99% são micro empresários na informalidade), é nas proibições da lei (herdada dos fliperamas e que proíbe inúmeras coisas, inclusive proximidade com escolas) que é necessário maior atenção do poder público.

Já os telecentros carecem de maior formação dos monitores, equipamentos mais atuais e conexão de banda larga, além de maior fortalecimento aos projetos envolvendo a comunidade, e inúmeros outros.

Querer encaixar lanhouses num projeto, esperado e tecido durante tanto tempo, voltado especificamente para telecentros é misturar alhos com bugalhos. Seria o mesmo que reivindicar verba para livrarias de um projeto de fortalecimento de bibliotecas, insisto.

[s]
Carlos

PS: visitem www.onid.org.br (ONID - Observatório Nacional de Inclusão Digital).

3. nem tão ao mar, nem tão à terra

Carlos e Estraviz,

permitam-me, digamos, discordar de ambos. Ou concordar, dependendo do ponto de vista. :) 

De fato, telecentros e lan houses são coisas diferentes, assim como bibliotecas e livrarias. Entretanto, minha discussão aqui é: nosso objetivo é incentivar "a leitura", independente se ela é feita em um lugar ou no outro, não é verdade?

Por outro lado, a comparação é um pouco injusta com as lan houses, porque no fundo, elas também são pontos de acesso público à Internet. Ou seja, são (ou pelo menos poderiam ser), espaços comunitários (ver, por exemplo, Miller, D., & Slater, D. (2004)), onde as pessoas se encontram, compartilham recursos, conhecimento, e estabelece redes e relações sociais (atributos normalmente associados mais com as bibliotecas que com as livrarias). A grande questão, entretanto, que eu tentei enfatizar e que acho que tem a ver com o que o Estraviz colocou, é que nem o telecentro (e nem a lan house) farão inclusão digital se o foco não for em projetos que realmente tenham estratégias de como incluir as pessoas.

Eu não acho ruim o investimento em telecentros, claro, porque eu acho que incentivos para projetos de informática comunitária são sempre válidos. A discussão que tentei levantar foi que lan houses também têm um sentido de espaço comunitário, por um lado, e por outro, talvez sejam um formato mais sustentável de longo prazo que os telecentros. (No Brasil as bibliotecas nunca conseguiram se estabelecer muito bem, não é? E ainda assim, algumas livrarias também aprenderam a importância de serem um pouco bibliotecas).

Por isso acho importante chamar atenção para que os telecentros não se tornem competidores das lan houses (isso seria um grande tiro no pé, não é verdade?) e que, além disso, quando se pense em lan house, não tenhamos uma idéia pré-concebida de seus objetivo são opostos aos dos telecentros. Diferentes, mas não incompatíveis.

Como o Carlos colocou, talvez por uma velha tradição, a gente acabe associando lan house a jogos de azar, mas na verdade, existe muito mais potencial aí para ser explorado. E eu acho que o tom da matéria do estadão não ajuda na promoção de uma mudança dessa cultura, retratando os donos de lan houses como frios aproveiadores que não hesitam em fazer uma boquinha no dinheiro do governo. E no fundo, o que eu imagino é aquele senhor, aposentado, de meia idade, numa cidadezinha no meio do Pontal do Paranapanema, que comprou meia dúvida de computadores e fica batendo papo com os jovens quando eles estão no orkut... 

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