A campanha do Obama, inclusão digital e ativação de redes

Na semana passada, assisti ao seminário do Castells sobre a eleição do Obama. Ele fez uma pesquisa enorme, tanto quantitativa quanto qualitativa, daquelas que custam muito dinheiro e exigem muitos contatos, sobre a relação entre a campanha, a Internet e as Redes Sociais, com foco nas Primárias. Meu amigo Ismael Peña tomou "live-notes" durante o seminário e fez um resumo excelente, e tem também um webcast de um workshop parecido que ele deu no OII, então não vou escrever tudo de novo. Mesmo porque esse tema já foi discutido à exaustão. O que eu queria aqui era destacar alguns insights do seminário, que acho que têm a ver com as discussões deste blog:

É preciso viver e entender para poder usar e promover

É claro que uma das coisas fundamentais para o sucesso do uso da Internet pela campanha foi - bom - o fato de que uma parcela muito grande da população americana está online. Ainda assim, nem todos fazem parte de uma rede social. Mas o fato é que uma quantidade maior das pessoas da equipe eleitoral do Obama (em oposição à equipe da Clinton, e muuito mais em relação à equipe do McCain) faziam parte de redes sociais durante (e antes) da campanha. Facebook, YouTube... isso fazia parte da vida delas. Meu ponto: uma coisa é estratégia de campanha, ah, vamos usar Web 2.0, envolver os jovens, dizer que a Internet pode mudar o mundo etc. Outra é, de fato, mudar a lógica, usar, viver isso no dia a dia, saber como funciona, na sua própria vida. E aplicar isso PRA DENTRO, e não apenas PRA FORA. Em outras palavras... não adianta pedir para monitores/dinamizadores de telecentro que só vêem valor em aprender Word, a incentivar o uso de redes sociais se na relação entre eles, dentro das associações, com os patrocinadores, dentro da REDE, isso não acontece. É difícil alguém promover uma coisa que não faz sentido para aquela pessoa. Para promover o uso da Rede, é importante promover a Rede.

Personalização e relevância

Permitir que as pessoas se apropriem do espaço, façam campanha do seu próprio jeito e, mais importante, tratá-las como pessoas. O que a tecnologia permite é que seja possível fazer essa "personalização" das relações (as tais das conversas, como já dizia o Manifesto...). Ou seja, as pessoas querem ser reconhecidas pelo que elas são: seres complexos, com gostos diferentes, expectativas diferentes, vozes diferentes... não como uma "parte de um coletivo". Na estratégia de campanha, pessoas ligavam umas para as outras, de outro estado, para darem informações sobre onde elas deveriam votar! E os eleitores eram cuidados, permanentemente, de forma local e não global. Nas campanhas de doação, o discurso era: doe para contribuir para esse determinado evento, que será realizado na sua cidade. Não "doe para a campanha para presidente".

Conclusão: não foi a "Internet" que foi determinante para o sucesso da campanha. Foi a sacada de perceber como usar a Internet para atender um desejo intrínseco das pessoas por serem tratadas de maneira personalizada. E aplicando essa lógica à inclusão digital: se o objetivo é incentivar o uso e a apropriação, então é importante não esquecer do lado afetivo das relações entre usuários e máquinas. Relevância é a palavra chave, e isso precisa ser feito de maneira personalizada: cada um define o que e quando. Mais sobre isso no próximo post.

Movimentos sociais - ativando redes

Segundo Castells, uma das "táticas" utilizadas por Obama foi uma estratégia de organização de comunidades desenvolvida por Saul Alinsky, que se baseia, pelo que eu entendi, em quatro eixos:

- Promover a auto-organização: se aproximar da comunidade, agir como um organizador inicialmente, reconhecendo a maneira de trabalho da comunidade. Identificar líderes locais. Se afastar

- A coisa mais importante são os problemas a serem resolvidos: isso permite uma conexão imediata com a comunidade.

- Ideologia, FORA: a força dessa idéia é que ela é profundamente inclusiva. Por mais que as pessoas possam discordar em termos de valores, se elas compartilham uma mesma região, ou um mesmo interesse, provavelmente compartilham das mesmas problemáticas. Nesse sentido, isso contribui para a organização das comunidades em torno de um objetivo.

- Política, fora: a estratégia se baseia no fortalecimento da comunidade em torno dos problemas. A idéia é desenvolver uma idéia forte ao redor da qual as pessoas se mobilizem, e então, em cima desses problemas concretos, construir a campanha. Não é uma questão de ideologia ou política. É uma questão de resolver problemas.

Próximos passos

Hoje o Obama vai dar o seu famoso discurso no Cairo. E, vejam só, você pode receber updates com os melhores pontos via SMS no seu celular. Concordemos: existe algo importante para se aprender com tudo isso. E, pessoalmente, eu acho que tem muito a ver com bom-senso... ;)

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