Autonomia digital

Ontem fui assistir à defesa de tese do Daniel Lopez, que trabalha comigo no ATIC. O tema da tese dele é tele-assistência, e a relação entre o cuidado, a tecnologia e como isso re-configura o sentido de "imediatez". Ou seja, como o uso de um aparelho pendurado no pescoço que pode ser acionado para contactar uma central de apoio em caso necessidade, entra e muda a vida das pessoas idosas que utilizam esses recursos. Elas se sentem mais seguras? E nesse caso, o que exatamente faz com que elas se sintam mais seguras, qual a relação disso com autonomia e como o uso dessas tecnologias redefine uma porção de idéias sobre espacialidade, tempo e trabalho em rede. Naturalmente, conforme ele ia expondo todas as questões com as quais ele se deparou e as reflexões que o trabalho dele levantou, eu ia fazendo conexão com as coisas que tenho observado/participado no telecentro e em relação a projetos de inclusão digital em geral. Abaixo, algumas das minhas reflexões/perguntas/anotações:

- O uso dos aparelhos de tele-assistência teoricamente coloca seus usuários em rede: eles estão conectados, e podem acioná-lo através de um botão. Nesse sentido, podemos dizer que estar em rede permite a eles fazer coisas que não se atreveriam a fazer caso o aparelho não estivesse lá: estarem conectados dá a eles uma possibilidade de ação. E eu: será que o uso de redes que os usuários fazem nos telecentros também permite que eles façam coisas que antes não se atreveriam? Estar em rede, para eles, é um facilitador de ações? Poderia ser?

- Quais os atores relevantes no dia a dia de um telecentro? Qual a importância da tela? A importância do teclado? Eu, pessoalmente acho que um ator fundamental no uso do computador é o sistema operacional. No telecentro, isso é claro: as dificuldades que os alunos apresentam no uso do Windows XP e do Vista são diferentes. As metáforas são diferentes, e como a monitora tem os dois sistemas operacionais na sala, muitas vezes ela tem que dar explicações diferentes para os usuários. Não passo-a-passo, mas efetivamente metáforas diferentes. Ou seja, o sistema operacional engloba toda uma caixa de metáforas que são parte essencial do uso dessa tecnologia.

- Retomando o approach STS, a tecnologia não é uma "produção independente" da sociedade, ela emerge e transforma. Quais os valores sociais existentes nos computadores e sistemas operacionais que usamos? O Windows e o Linux são organizados em termos de "pastas" e "arquivos". Qual o mundo que os computadores reproduzem? Por que não armários e gavetas? Outro dia, no telecentro, uma usuária dos seus 35-40 anos perguntava: mas se estamos criando pastas, onde vamos guardar os arquivos? (afinal, geralmente a gente guarda pastas dentro de arquivos, e não arquivos dentro de pastas, não é?)

- Os aparelhinhos de tele-assitência tem, como objetivo, ao menos teoricamente, aumentar a autonomia do usuário, permitir que ele tome suas próprias decisões. A autonomia é um valor central da lógica que inspirou os artefatos. E comecei a pensar também se o processo de inclusão digital[1] não tem com objetivo final a conquista da autonomia. Ou seja, se ser capaz de tomar as próprias decisões, independente dos outros, não é um dos pontos centrais também do processo de apropriação da tecnologia. E, em caso positivo, o que isso implica? Quais necessidades uma pessoa idosa tem para que seja "digitalmente autônoma"? Se uma pessoa idosa precisar sempre do Google para navegar, então, não proporcionar fácil acesso ao Google é uma maneira de colocar uma barreira em sua navegação, não é? Ou será que inclusão digital é definir que todas as pessoas precisam aprender a navegar na Internet "da forma correta"?

- Quando os usuários estão com o aparelhinho pendurado no pescoço, esses aparelhinhos são como uma extensão do corpo, fazem parte do que dá sentido ao espaço que existe ao redor deles. Qual a relação que usuários de computadores em espaços compartilhados tem com essa máquina? Qual a sensação de apropriação, extensão, organização? Como isso é diferente da forma como as pessoas configuram a relação com uma máquina própria? Lá no telecentro, a monitora sempre busca que os usuários trabalhem em máquinas que são o mais parecidas possível com as máquinas que eles tem em suas casas. Na fala dela, a idéia é fazer com que seja mais fácil que eles reproduzam em casa o que aprendem no telecentro. Mas talvez seja mais do que isso, seja uma sensação de conforto de estar em um ambiente conhecido que permite que o usuário seja mais livre e portanto aprenda com mais facilidade. Ele não se sente inseguro por estar num ambiente estranho. E logo, extendo e conecto: será que é errado buscar proporcionar conforto aos usuários?

- Os aparatos são elaborados dentro de uma proposta de design universal. A idéia é interessante: uma profunda adaptação para que se aproxime muito às necessidades específicas dos usuários, mas ao mesmo tempo mantendo uma usabilidade para a maior quantidade de usuários possível.

Uma das coisas mais recorrentes do dia-a-dia do telecentro é a dificuldade que pessoas mais velhas (ou mesmo adultos, em oposição à incrível facilidade das crianças) têm para usar o computador. É preciso explicar novamente como abrir pastas, salvar arquivos, encontrar uma imagem que foi armazenada na... Área de trabalho? O que é isso?

E ainda assim, eles se acham muito mais facilmente quando estão na Internet, mas precisamente na frente da tela do Google. E lá eles se sentem em casa. 

Pergunta: quais as implicações disso para quem está pensando inclusão digital?

[1] Vou abandonar essa expressão em breve, depois da crítica que li num paper do Buzato, que a Kiki me mandou, e que acho que faz todo o sentido, mas explico depois, por hora vou continuar usando inclusão digital mesmo.

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