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Sobre telecentros, lan houses e celulares

Tenho participado nas últimas semanas de diferentes discussões relacionadas ao que se poderia chamar do futuro da inclusão digital. Telecentros foram, quando se começou a pensar que pessoas estariam excluídas da sociedade em rede, uma estratégia de oferecer acesso a esses grupos em risco de exclusão. Com o barateamento do preço dos celulares e a ampliação de suas capacidades, de um lado, e a popularização de lan houses, por outro, o papel dos telecentros como espaços necessários de acesso começou a ser questionado.

Isso para mim soa um pouco estranho. Porque já faz muitos anos que quando se pensa em telecentros, o foco não é apenas o acesso físico à tecnologia (o que, na melhor das hipóteses, poderia ser suprido pelos celulares e lan-houses). Mas as atividades dos telecentros vão muito além disso. Participei recentemente de um encontro nacional de uma rede de telecentros aqui na Espanha e um dos temas mais discutidos foi como melhorar o envolvimento da comunidade com a tecnologia. Em outras palavras, em como pensar maneiras de que a tecnologia possa ser apropriada pelas pessoas de maneira a poder auxiliar em suas vidas.

Sempre uso um exemplo para descrever o problema da exclusão digital: quando uma pessoa está procurando emprego, antes da Internet ela provavelmente iria a agências, falaria com seus amigos e distribuiria currículos nos lugares onde gostaria de trabalhar. Hoje em dia, alguém que faça isso também poderá conseguir um emprego. Entretanto, alguém que, além dessas ações, também cadastre seu currículo em sites de emprego, visite sites das empresas em que está interessado, se prepare para a entrevista fazendo uma pesquisa online, entre em contato com pessoas de sua rede expandida de conhecidos que possam fazer uma indicação, terá mais chances de conseguir seu emprego. O objetivo de iniciativas de inclusão digital é diminuir essa diferença nas chances de desenvolvimento entre as pessoas.

Assim, telecentros têm uma missão que vai além de prover acesso a computadores. Diferente de lan houses, que podem ser espaços para a inclusão digital, sem dúvida e devem ser consideradas dentro de uma visão macro sobre esse processo. Os telecentros, porém, têm outro papel e, com o aumento de disponibilidade de formas baratas de acesso, esse papel fica cada vez mais claro: no meu entender, esses espaços são pontos de ativação de redes – locais, regionais, globais. Redes que são, em última instância, a realização do potencial das tecnologias: conectando pessoas, equipamentos, conhecimentos, potencialzando competências pessoais e abrindo novas possibilidades de desenvolvimento.

Nesse sentido, celulares e lan houses deveriam ser parte da estratégia de telecentros. Lan houses formam parte da comunidade. Celulares são novas tecnologias que podem e devem ser usadas, e esse uso pode ser explorado a partir do próprio telecentro – com tecnologia bluetooth, wi-fi, atividades envolvendo os usuários e incentivando-os a descobrir as potencialidades do uso de seus aparelhos. São, portanto, aliados.

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